Todo dia


"Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor"


E aqui estou eu, todo marido, não aguentando muito nem passar o dia fora que bate aquela saudade grande, vontade de voltar pra casa, no meio do expediente, como fosse para encontrá-la e passar o resto do dia. Sinto saudades, logo amo. A associação pode parecer ingênua, mas no fundo só se sente saudade do que se gosta, mesmo que a principio se disfarce; e se a saudade é grande, mais que gostar, é amor.

Dava saudades da mãe quando eu viajava com parentes, ou saia com vizinhos. Dá saudades da irmã quando fico mais de quatro ou cinco dias sem aparecer por lá. Da sobrinha então, nem se fale, além da saudade a falta daquela pequena me sacaneando, chamando de mãe mesmo sabendo dizer titio. Mas das saudades, dessas de agora, a maior de todas, quando bate, é dela, da mulher que eu amo. E essa começa quando eu saio pela porta de casa, indo para o trabalho.

E eu, que era o homem que não se casaria antes dos 28, que curtia a vida de solteiro pela liberdade proporcionada, agora digo, e além de dizer eu vivo, que liberdade mesmo é ter o mesmo lugar para onde voltar, ter os mesmos braços para abraçar, todos os dias, sucessivamente, sem pausa ou tempo para descanso. E eu não me imagino uma manhã ou noite sequer longe dela; e mesmo que um dia haja necessidade, que seja breve, como as partidas e reencontros que vivemos todos os dias.
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