Aritimética Incomum



Foi no sábado passado, quando fui comprar uma panela nova, uma panela de pressão, que em casa de casal tem que haver feijão, feijão preto fresquinho cheirando no fogão, unindo os dois pela fumaça; Foi num dos corredores daquele supermercado que eu vi aquela cena bonita. Era um casal de velhinhos, estavam indo comprar peixe. Eram velhinhos, ao ponto de serem meus avós ou até mais que isso, mas era uma coisa bonita de se ver.

O senhor, bem alto, ainda com muito cabelo, todos brancos, vestia uma calça de linho, e uma camisa que não estava lá muito passada, mas era coisa de gente bem formal. A senhora, mais baixa que ele, parecia mais jovem, parecia estar sempre carregando um sorriso. O senhor, com dificuldade para andar, caminhava a passos bem curtos, e de maneira bem lenta, enquanto a dona, esposa dele, parecia inquieta, como se fosse não apenas alguns anos, mas décadas mais nova que ele, falando da alma.

Foi quando eu percebi que os dois eram daqueles dois que de fato são um. "Espera, minha preta", disse o velho, bem baixinho, quando ela já estava a uns quatro ou cinco passos de distância. Ela voltou, não disse nada, passou a mão na cabeça dele, e sorriu enquanto ele resmungava alguma coisa. Se colocou ali, ao lado dele, segurando pelo braço, e foi caminhando bem devagar, no mesmo passo do velho, quase sem sair do lugar, mas com a certeza de que chegariam em casa a tempo de temperar o peixe.

Naquele momento, trouxe para mim toda a inveja do mundo. Não, acho que inveja não é a palavra, mas também não é só admiração, pela cena de carinho entre dois velhinhos num corredor de supermercado. Acho que as melhores palavras que consigo para definir minhas sensações naquele momento são desejo e necessidade. Tive naquela hora e tenho agora ainda, o desejo de que num futuro distante, meu relacionamento possa ser como o daqueles dois velhinhos, tenho também a necessidade de que seja assim, para que se cumpram todas as poesias que já foram escritas sobre o futuro. Por enquanto, continuo na pratica dessa aritimética incomum, onde um mais um resulta em outro um, completo, e diferente.
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