De novo: Insônia


Perdi até o jeito da poesia. Ando numa secura de alma tão grande, dessas que me fazem até querer ser vinho vagabundo, embriagar algém com poucos goles e muito açúcar. Já nem me lembro quando foi a última vez que eu olhei para o céu de noite, querendo encontrar deuses. Já nem lembro quando foi a última vez que eu olhei pro céu.

Nem mesmo caminhar à noite, flertando com o perigo iminente, no olhar do malandro, vagabundo, querendo ganhar a vida como sabe. Nem mesmo caminhar a noite pela cidade, pelas ruas bem conhecida desde que os anos começavam com um. Não é espera, é ausência. Não é peso, é vazio. Me perdoe, senhor Milan.

Talvez seja só inércia. Talvez por inércia, ainda me ponho a escrever, a essa hora, antes de dormir. A escrita é um substituto, a exposição do que é pelo que não é. Sou tudo, menos as palavras que escrevo. Um emaranhado de sensações conflitantes, derramados num caldo de pensamentos, fervendo na mente. Perdoem a bagunça, é sono.

É sono mas bem que poderia ser embriaguês. Não é comparação, é vontade. Vontade abafada pelo domingo, pela proximidade inevitável da segunda feira. O sono faz deitar o corpo, a bebida faz saltar a alma. O sono é parte da tristeza, a bebida lembra alegria. Entre um e outro nasce a poesia, mas, para o bem de todos, que bem se lembre: é preciso evitá-los em horário comercial.

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