À sombra do desinteresse


Eu rastejo pelas sendas mais escuras. Fui o cego, o louco, o lobo desgarrado da alcatéia. Sempre solitário. Fui tanto que hoje me sobra bem pouco. Nas divisões da vida eu já nem sei o quanto dela me resta. Sou decadente escultura pintada com cor de pérola, suposições, humanidade.

Embriagado de sono, sempre achei o caminho de casa. Inseguro, nunca soube de fato o mundo ao qual pertenço. Se a esta terra de homens e desejos hostis ou a um reino melhor e pleno, que de fato existe, nem que seja na imaginação dos que o almejam.

Desmedi e desmenti falsas promessas para alcançar a verdade. Me perdi. Fui engendrando mortes em mim a cada vez que em meu peito, de pesado, o coração parava e alma, desejosa de um pouco mais daquilo que nunca teve, teimava em alçar voo, abandonar o corpo, abandonar o rude e pobre corpo.

Chorei fins, um pote grande, e ainda não acabou. O amargo de hoje será amargo, um pouco mais ou menos, amanhã.Escondi todos os relógios para não ver o tempo passar. Agora já é tarde, é melhor dormir. Nos sonhos que tenho já é quase amanhã.
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