Tudo passa, tudo passará


Como cantava Nelson Ned. tudo muda, tudo se transforma, tudo passa, e as vezes rápido demais. Não tenho muito tempo para blogar, mas quando dá, escrevo sobre tudo um pouco por aqui e sobre gastronomia aqui. Visitas são bem-vindas, preferencialmente as que trazem cerveja.

Todo dia


"Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor"


E aqui estou eu, todo marido, não aguentando muito nem passar o dia fora que bate aquela saudade grande, vontade de voltar pra casa, no meio do expediente, como fosse para encontrá-la e passar o resto do dia. Sinto saudades, logo amo. A associação pode parecer ingênua, mas no fundo só se sente saudade do que se gosta, mesmo que a principio se disfarce; e se a saudade é grande, mais que gostar, é amor.

Dava saudades da mãe quando eu viajava com parentes, ou saia com vizinhos. Dá saudades da irmã quando fico mais de quatro ou cinco dias sem aparecer por lá. Da sobrinha então, nem se fale, além da saudade a falta daquela pequena me sacaneando, chamando de mãe mesmo sabendo dizer titio. Mas das saudades, dessas de agora, a maior de todas, quando bate, é dela, da mulher que eu amo. E essa começa quando eu saio pela porta de casa, indo para o trabalho.

E eu, que era o homem que não se casaria antes dos 28, que curtia a vida de solteiro pela liberdade proporcionada, agora digo, e além de dizer eu vivo, que liberdade mesmo é ter o mesmo lugar para onde voltar, ter os mesmos braços para abraçar, todos os dias, sucessivamente, sem pausa ou tempo para descanso. E eu não me imagino uma manhã ou noite sequer longe dela; e mesmo que um dia haja necessidade, que seja breve, como as partidas e reencontros que vivemos todos os dias.

Aritimética Incomum



Foi no sábado passado, quando fui comprar uma panela nova, uma panela de pressão, que em casa de casal tem que haver feijão, feijão preto fresquinho cheirando no fogão, unindo os dois pela fumaça; Foi num dos corredores daquele supermercado que eu vi aquela cena bonita. Era um casal de velhinhos, estavam indo comprar peixe. Eram velhinhos, ao ponto de serem meus avós ou até mais que isso, mas era uma coisa bonita de se ver.

O senhor, bem alto, ainda com muito cabelo, todos brancos, vestia uma calça de linho, e uma camisa que não estava lá muito passada, mas era coisa de gente bem formal. A senhora, mais baixa que ele, parecia mais jovem, parecia estar sempre carregando um sorriso. O senhor, com dificuldade para andar, caminhava a passos bem curtos, e de maneira bem lenta, enquanto a dona, esposa dele, parecia inquieta, como se fosse não apenas alguns anos, mas décadas mais nova que ele, falando da alma.

Foi quando eu percebi que os dois eram daqueles dois que de fato são um. "Espera, minha preta", disse o velho, bem baixinho, quando ela já estava a uns quatro ou cinco passos de distância. Ela voltou, não disse nada, passou a mão na cabeça dele, e sorriu enquanto ele resmungava alguma coisa. Se colocou ali, ao lado dele, segurando pelo braço, e foi caminhando bem devagar, no mesmo passo do velho, quase sem sair do lugar, mas com a certeza de que chegariam em casa a tempo de temperar o peixe.

Naquele momento, trouxe para mim toda a inveja do mundo. Não, acho que inveja não é a palavra, mas também não é só admiração, pela cena de carinho entre dois velhinhos num corredor de supermercado. Acho que as melhores palavras que consigo para definir minhas sensações naquele momento são desejo e necessidade. Tive naquela hora e tenho agora ainda, o desejo de que num futuro distante, meu relacionamento possa ser como o daqueles dois velhinhos, tenho também a necessidade de que seja assim, para que se cumpram todas as poesias que já foram escritas sobre o futuro. Por enquanto, continuo na pratica dessa aritimética incomum, onde um mais um resulta em outro um, completo, e diferente.

Questão de concordância


Passado o clima de eleições, passo a militar numa causa que não é do interesse geral da nação, é particular, mas da qual faz bem falar, para o contágio necessário. Estou apaixonado. Mais que isso, mais que uma simples paixão, dessas que acontecem no ônibus, no bar, no museu, na internet, que afeta crianças, velhos, adolescentes, bêbados e funcionários públicos, estou amando de verdade. É querido leitor, você pode estar achando esse papinho muito água com açúcar, e de fato o é.

Para não dizer que não foi cliché, aconteceu quando eu menos esperava. Nunca entendi muito de gostar, amor, paixão, suas classificações, sutilezas, diferenças e todos os etceteras, mas posso dizer que no momento estou a viver um combo desses sentimentos e muitos outros que não tive memória o suficiente para buscar o nome. Eu gosto dela, eu estou apaixonado por ela, estou a sentir por ela a cada dia sensações diversas nunca antes experimentadas que só posso dizer: estou amando-a.

Até então, fosse apenas pelo que disse, a coisa não estaria completa. Esse amor de apenas uma via é só suposição, quase farsa. Vejo o bem que faço a ela refletido em mim no bem que ela me faz. Concordamos em nossa paixão e assim podemos dizer: Estamos nos amando. Você que já passou por isso sabe bem do que falo, de como os sentimentos agitados e quase confusos da paixão, vão se ajeitando, até que a alma e o corpo tomem prumo. Você que ainda não sentiu, deixo como conselho que espere, apenas.

Finalmente quero dizer que esse amor, o último e o maior, me completa enquanto poeta. Hoje eu consigo entender melhor aqueles sonetos apaixonados que escreveu o poetinha, aqueles mesmos do primeiro livro, do meu primeiro contato com a poesia. Entendo quando Vinícius, bêbado, disse sentir vontade de bater à porta da ex mulher mas ter algum medo; um amor desses não acaba com um simples acordo de separação. Agora deixe-me ir, vou contar o tempo para diminuir a espera.
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